Sinto-me morta, mas
meu coração não para de bater. Sinto-me viva, mas sou apenas um cadáver.
Perdida entre dois mundos. Eu os vejo. Os sinto. Comunico-me.
Eles não estão vivos. Assim como eu, por dentro. Eles me querem. Ver minha
derrota é o único objetivo. Vejo-os sorrindo. Eles almejam minha
fraqueza. Quando estou mal, eles estão sempre por perto.
Sombras. Sorrisos. Vultos.
Choros. Eu os vejo. Estão me controlando. Eu não sei o que
fazer. Eu não consigo me libertar. Vozes em minha cabeça me
enlouquecem. Eles estão tomando o controle.
Estranhos conhecidos.
Eu já os vi. Estão mais fortes.
Uma suicida. Um psicopata.
Uma viciada. E uma além dos limites. Eu os conheço. Estão todos comigo.
Falando-me coisas que eu não consigo ignorar. Eu não
vejo luz. Muitas mulheres. Um robô. Um homem que sempre troca a camisa. Ele nunca
se lembra com qual camisa eu o vejo. Ele se assusta e da um pulo quando
eu o chamo. Ri. Ele sabe que eu o vejo mas se surpreende pela minha
capacidade. Ele vem em minha direção e para em minha frente.
Invisível. Está sorrindo. Seu corpo se dissolve em questão de
segundos quando abro a boca. Virou fumaça. Confusão. Ele não
está mais lá.
Uma menina. Quer me chamar
atenção. Joga pequenos pedaços negros de fuligem na
parede para onde estou olhando. A suicida. Chama minha atenção.
Está em minha frente. Semimorta,
semiviva. Eu a chamo.
- O que você tem, minha
querida? Não fique tão triste.
Ela me escuta. Senta-se
aos meus pés e se encosta-se em minhas pernas dobradas. Ela está
triste. Ela sente a tristeza que eu mesma sinto. Escondendo
meus próprios pensamentos e tristezas, digo-lhe.
- Você é uma menina
tão linda. Não precisa usar de violência para chamar a atenção.
“Me desculpe, me desculpe.”
Seu sussurro é tão baixo
que é quase inaudível. Ela é tão bela. Tão triste. Queria poder fazer mais por
ela. Eu a toco. Ou pelo menos tento. Sua energia é a única
coisa que posso sentir. Sua voz tão doce, tão bela, tão escurecida.
- Tudo que você precisar
fazer busque orientação divina,
Ela vai se dissolvendo
entre meus dedos.
“Me desculpe.”
Ela não estava mais lá. Eu não a via. Só sentia.
Outro alguém aparece. Um
homem. “Gabriel” logo penso.
Minhas sobrancelhas se franzem. Ele está perto do teto.
Seus braços abertos e postura onipotente. Ele ri de maneira
doentia. Ele sabe e eu também. Ele está mais forte. O cenário ao redor não
passa de cores. Preto, vermelho, cinza.
Me vej em meu quarto novamente
Uma voz me fala ao ouvido. “Ele está te
chamando”. Estranho,
eu na estava esperando ninguém. Levanto-me da cama e vou para a
porta da frente. Vislumbro um homem sentado na cadeira da
cozinha, mas logo desaparece. Ignoro. Abro-a. não tem ninguém
lá. Volto para o quarto e falo para o nada.
- Muito engraçado.
Deito-me. Vislumbro Gabriel
à porta. Ele sorri de maneira doentia. A menina
também esta lá, mas não o vê.
“Jogue energia nela.”
E é o que eu faço. Aos
poucos, consigo vê-la melhor. Longos cabelos negros que
chagavam a sua cintura, lisos e brilhantes. Cobriam seu rosto.
Ela não me via mais. Estava andando em círculos, como se
ocupada com algo. Ela deve ter percebido minha energia, pois logo
desaparece novamente. Gabriel também não estava mais lá. “Que seja” penso.
O Homem que sempre troca
de camisas aparece. Ele confunde minhas memorias. Apagando
e transformando. Não sei o que ele faz, ele nunca
deixa eu saber. Só sei de suas camisas. Camisas polo, listradas, prestas,
vermelhas. Ele brinca de mais. Logo se cansa de tentar
acertar a camisa que estava no começo de minha memoria e vai
embora.
Outro alguém. Uma mulher. Um homem. E um robô. Estão a minha
volta. Isso parece um sonho. Memorias que parecem sonhos... Mas estou acordada.
Milhares de mulheres bela e idênticas aparecem. Todas em fila. Todas cantando
de maios. Elas me olham feio. Os três ao meu redor conversam. Pastilha
de energia enfileirada vem em minha direção e passam por mim. Tento
toca-las. Não consigo. O robô me diz que são protegidas por um campo magnético.
Quem não faz parte desse mundo não pode toca-las.
- Oooooi.
Um voz feminina chama minha atenção. Já não
vejo as milhares de mulheres idênticas enfileiradas. Nem os três que conversavam
ao meu redor. Essa pequena criatura está em minha frente.
Ela sorri de modo travesso. Natasha. Está segurando em isqueiro preto.
Seu corpo é transparente. Ao seu redor, uma luz azul. Sua energia.
- Oi.
Ela brinca. “Buh”!. Sua
risada infantil combina com seu sorriso. Ajoelha-se no
chão entre meus joelhos e repeti “Buh”.
Com certeza ela era a mais travessa. Era magra e pequena. Como uma
fada.
Minha gatinha estava do eu lado. Ela via mais ignorava
o movimento ao redor. Dormia. Ao seu redor também avia energia. Era
azul. Toquei-a. “Olhe, ela eu posso
tocar. Ela é do meu mundo... Bom, pelo menos metade é.”. Olho
entre minhas pernas, a guria não estava mais lá.
Certo. A energia também sumira. Eu não a via mais.
Toda essa bagunça em apenas uma tarde.
Minha cabeça pia alto. Algo estranho estava acontecendo.
Uma mulher. Bela mulher. Ela fala comigo. Algo importante, muito importante.
Sua voz era urgente. Não tínhamos tempos.
De repente, o
quarto é tomado por sombras. Demônios. Eles saem das paredes com seus
sorrisos aterrorizantes, olhos famintos. Meu coração dispara. Eles
se multiplicam ao redor em sombras. Sombras que explodiam. Mais parecia ferro
derretido, borbulhante e negro. Estão caindo em cima de
mim. Negros, vermelhos, e de um amarelo doentio. Doença, morte,
destruição. Eles querem me tomar.
A mulher cria uma barreira
de energia e me entrega algo Um papel.
- Guarde-o com sua vida.
“Mas o que é isso”. Ela desaparece e sou absorvida em negro.
Minhas mãos se fecham entre o papel. Meu grito é agudo. Ensurdece-me.
Tão frio. Eles me absorvem. Protejo meu rosto com os braços. Desespero,
maldição.
Minha respiração
era ofegante. Estava quieto. Abro os olhos. Eles não estavam mais
lá. Eu não os via. “O que será que
aconteceu”.
Mais um trago. Mais uma
visão. Já estava exausta. Mas não podia parar.
Os estranhos conhecidos
estão ao meu redor, eu sei. Espreitando, velando. Desejam minha
morte.
Cada um com sua personalidade.
Cada um com seu desejo.
“Eu não sei mais o que fazer”
Como uma benção caindo
sobre mim, desmaio em um sono profundo e sem sonhos.
Durmo com a delicadeza do
vento. Sei que estou segura. Eles estão ao meu redor.
Sorrindo para mim.

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