Depois da Porta
"Abra os olhos. Eu estou lá. Girando, girando, girando...Você não pode me ver. "
Ela não sabia onde estava. Longe o lugar que se encontrava. Ela não era mais ela. Já era outra, ela. Abriu os olhos. O redemoinho em sua mente gritava em seus ouvidos. Ela não sabia onde estava. Mas... onde está a porta? Ela procurou, observando ao seu redor. Lugar estranho. Mas não tinha ninguém. Só ela. Só então percebeu que estava sentada, não sabia em que. Era muito macio. Tão macio quanto uma nuvem. Mais estranho ainda. Ela nunca havia sentado em algo como isso. Ou estado em um lugar como aquele... mas alguma coisa a fazia sentir-se em casa. Como se aquele fosse seu lar a muito tempo atrás. Em épocas que ela não se lembrava.
Estava tudo escuro. Ela não via luz, não via gente, não ouvia nem sentia nada além daquele chão de nuvens. Mas não sentia medo. Aquela era sua casa. Percebeu então, que não sabia as horas. Ora, poderia ter se passado muito tempo desde que chegou à aquele lugar, ou tempo nenhum. E seus pensamentos? Também não sabia quanto tempo havia pensado. Intrigante. O tempo lá não parecia normal, aliás, nada parecia naquele lugar.
Ela se levantou. Estava curiosa. O que poderia ter naquele novo lugar conhecido? Ela só via seu próprio corpo. Como uma estrela que tem luz própria. Riu-se disso. Havia uma época, não sabia se era muito ou pouco tempo, que um alguém disse-lhe que tinha uma luz dentro dela. Uma luz especial. Uma época bonita e triste, omo o por do sol.
Estava nua. Ela se viu brilhando e nua. Sua pele se dava bem com a luz. Era banca como papel e a luz lhe dava uma impressão de magia. Olhou para cima. De onde vinha a luz? Ela nada encontrou além de mais escuridão. Talvez estivesse dentro de uma caverna... ou uma caixa.
Começou a caminhar a passos mansos. Percebeu que a macies que se sentara não existia para seus pés. Sentia o chão frio e fresco, com uma leve brisa lhe passando entre os dedos. "Um chão flutuante" - pensou. Era como ar endurecido que ainda sopra delicadamente.
A medida que andava, a cada passo, ela percebia que algo ocorria mais a frente. Cores começavam a surgir do chão, rodopiando delicadamente para cima e se espalhando ao redor. Cores vivas. Elas nasciam. Uma delicada melodia elas faziam. Ela se assustou. Cores não poderiam se comportar assim. Só quando colocamos um pincel com tinta fresca na água. Mas mesmo assim, era totalmente diferente.
Uma pequena voz começava a brotar de sua mente. Essa voz não vinha de lugar nenhum mas estava em todos os lugares. Uma voz mágica, que parecia música. Que falava. Soava. Desaparecia. E logo estava lá de novo. Que nascia e morria dentro dela. Uma voz azul. Brilhante.
As cores aguadas já estavam tocando seus pés. Se ondulando a sua frente. Enrolando-se no seu corpo. Cores e músicas. Sons nunca ouvidos por ouvidos normais. E o quadro foi se formando. Sendo pintado e tocado. Ela tinha os olhos brilhantes e fascinados como os de uma criança. Tudo era cor. Mas não tinham forma. Cores e músicas sem forma. Elas não tinham linhas. Elas não tinham padrões, nem formas, nem regras. Ela sabia disso. E gostava. Tinha pessoas que não gostavam nada disso. Essas pessoas que queriam as coisas como são. Que não viam o que ela estava vendo agora.
Então ela se lembrou.
Já havia visto essas cores, essa música, em sua casa, em sua quarto, em sonhos. O diferente era que elas não tinham essa brilho e magia que tinham ali. Ela tinha o cérebro a mil. Se já as havia visto antes, só que diferentes, e agora as veem como são (ou não) então, ela já não estava mais em seu mundo.
Desde pequena ela as via. Sabia que elas não faziam parte do mundo normal.
Então ela lembrou da porta novamente, e o que havia acontecido antes dela também. Se lembrou do corte, da sala, da luz. A medida que lembrava, os ramos das cores foram se escurecendo e apodrecendo. Pedaços de cores, como cacos de vidros, foram se desprendendo de seus lugares e caindo ao chão, se desfazendo em pequenos brilhos e sumindo antes de tocar ao chão. Enormes ramos, gigantes cores, foram caindo. Escureceram. A música foi se tornando uniforme e ensurdecedora. Era uma única nota estridente e perturbadora. Estava a enlouquecendo.
As suaves cores já não existiam mais. Em seu lugar surgiram ramos de uma única cor. Vermelho. Mas não era o belo vermelho carmim. Era um vermelho morto, marrom. Como sangue escurecido. Ele surgia do chão. De um único lugar. Então se espalhava, devagar. Um vulcão derramando sua lava preguiçosa e perigosamente. Ela foi se aproximando da nascente. Assustada. A passos desconfiados. A cor cobria seus pés até os tornozelos.
Olhou para dentro do buraco. Era comprido e profundo. Tão profundo... Ela foi se aproximando. A rachadura tinha um aspecto curioso. Poderia caber um homem lá dentro. Até mais. Ela sentia-se hipnotizada. A sinistra canção que vinha daquele lugar a chamava. Todos seus instintos a falavam para corres, sair dali o mais rápido possível, mas algo a impedia. A cor e o som pareciam prende-la ali.
Já estava na beira do abismo quando uma voz a fez pular.
"Eu não faria isso se fosse você".

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