sexta-feira, 16 de maio de 2014

Meu Eu Único



Os Dois Lados da Moeda 


Ela se vê no centro da enorme sala. Era redonda e alta. E desde o chão até onde a vista alcançava no alto estava cheia de espelhos. Colocados em fileiras nas paredes. Um em cima do outro. Todos eles eram iguais. Retangulares, com dois metros. Suas bordas eram de prata. E refletido em cada um deles dava para ver mais mil espelhos, um dentro do outro. Do alto, uma luz fria iluminava parcialmente o aposento, não era do Sol nem da Lua. Era somente uma luz. Sem vida.
Ela estava curiosa. Que sala seria essa? Procurou o homem que a trouxera para lá mas não o viu em lugar nenhum.
Um movimento em um dos espelhos a sua frente chamou a atenção da garota. Ela olhou para trás, procurando a origem. Mas nada viu além de mais espelhos refletindo mais mil espelhos. Ela encarou o espelho a sua frente novamente, esperando algum outro movimento. Foi se aproximando silenciosamente. Tinha medo de que qualquer barulho pudesse acordar algum perigo à volta.
Chegando a frente, viu seu reflexo e outros mil espelhos refletidos com mil outras versões dela olhando para eles. Ela se pois a observar o belo objeto. Em sua terra, nunca vira algo tão belo e simples. O vidro era claro como agua pura. A prata era delicada e brilhante, como se fosse feita dos raios da lua cheia. Era tão límpido que nunca parecia ter sido tocado. E tão fino que provavelmente se partiria com uma brisa de verão.
O intuito de tocar o belo objeto era tão grande que não se segurou. Elevou a mão devagar, até a altura dos ombros. Excitou temerosa. Seus olhos grudados nos olhos refletidos. Então uma cabeça se mexeu. Uma de suas mil cabeças saiu da perfeita linha refletida e a olhou, como se com medo, e voltou ao seu lugar rapidamente. Ela deu um grito, tampando a boca com as mãos. Saltou para trás e encarou suas outras mil versões fazendo o mesmo movimento perfeitamente. Ela estava vendo coisas, pensava.
- Você não está vendo coisas. – A voz cantada em seu ouvido fez ela se virar rapidamente. Ela não tinha visto outro reflexo além do dela, não previu uma aproximação.
Era o homem. Bem ao seu lado. Sorria delicado, mas seus olhos eram pesados.
- Quem você viu, era você. Uma de suas você. Uma de suas personalidades. Elas são instruídas a fazerem tudo igual você faz. Agir, falar... Mas algo deu errado em sua fabricação e algumas delas se tornaram mais... Explosivas. E é isso que faz seu temperamento ser tão inconstante. Além do mais, isso permite que você veja as coisas de forma diferente.
“Mas não é só isso. A sua você principal, diremos assim, tenta sair de seu padrão de fabricação. E isso enlouquece seu cérebro. Para agradar aos outros e talvez até a si mesma, você tenta ser diferente. Isso faz com que você se perca, deprima e se entristeça por não conseguir se mudar. O mais interessante – Ele olha para o espelho, encarando a cabeça que se mexeu – é que você não quer mudar. O seu eu mesmo está lutando.”
Ela nada dizia. Lembrou de sua vida. De como lutara em inúmeras situações tanto para ser ela mesma quanto para mudar-se. Lembrou-se de se ajoelhar e implorar a um alguém que não a compreendia para não deixa-la. Que ela era incompleta sem ele. Que ela tinha se mudado por ele. Lembrou-se de se esconder dos outros, pois não era compreendida. Mas como ela seria compreendida se nem ela mesma conseguia fazer isso?
Ela se viu caída, inúmeras vezes, derrubada pelo mundo, sem conseguir se levantar.  Perguntando, implorando, ordenando por uma mão amiga. Mas ela se afundava cada vez mais. O poço já não era fundo o bastante para ela.
Fatos de sua vida passaram diante de seus olhos. A explicação do homem era simples. A culpa era dela e de sua mente. Ela era quebrada, nasceu assim e sempre seria assim. Por mais que tentasse, nada que fizesse faria efeito. Sua mente era uma loucura. Teria ela de ceder a loucura?
Um sussurro começou a ecoar pelo ambiente. Era agudo e suave. Encheu a mente da garota como se hipnotizasse.
“Ceda a mim, ceda a mim”.
Essa voz foi aumentando vagarosamente. O brilho dos espelhos a se intensificar. E bela viu as mil dela refletidas no espelho. Estavam valsando. Mil em cada espelho. Atravessando para outro e mais outro, valsando ao som do sussurro e sua melodia. Então ela se viu girando e rodopiando juntamente com as mil dela refletidas. Embriagada. Ela não pensava mais.
Ela parou no meio do salão. Um dos espelhos havia se apagado ao fundo. Depois outro, depois outro. Mil espelhos se apagaram ao meu redor, mais mil acima. E atrás. Meus outros eu desaparecendo. O homem no meio do salão foi se transformando. Empalidecendo até se transparecer. Aumentando. Se afinando. Então, no final da transformação, ele era o mais imponente espelho que havia naquela sala.
Ele não era feito de prata ou outro. E nem cravejado de diamantes. Ele era manchado, enorme, sem borda alguma. E não parecia ser feito de nenhum tipo de material físico. Era como uma neblina.
Ela se via frente a frente o que antes, era um conhecido. Era com certeza um espelho, pois ela se via. Mas somente a ela. Não havia nada ao redor. Seu reflexo era destorcido. Como o espelho neblina. Ele se multava. Suas feições se alongavam, diminuíam, ondulavam, Além disso, ela percebeu que a medida que se encarava via suas feições mudando. Suas roupas e idade também transpareciam diferentes. Cada rosto que aparecia a sua frente era um sentimento. Um momento. Uma lembrança. Uma personalidade.
Um adorno surgiu na parte de cima do grande espelho. Grandes palavras prateadas com os dizeres “Psy” se floreavam.
Os rostos continuavam e multando. Sua velocidade aumentava aos poucos. Cada um com sua característica. E de cada boca se sussurrava “psy, psy”. As vozes encheram o grande salão. Cada qual atropelando a outra com o aumento da velocidade.
“psy, psy, psy”.
Já não podia se ver ou distinguir os reflexos no espelho. Era somente um borrão, mudando alucinantemente. Confundindo a mente dela. O grande objeto começou a se esvair. A neblina se dissipando devagar. Ele se iluminou. Sua velocidade e as vozes eram indescritíveis e inteligíveis. Ela deu um passo para trás. Um grito agudo tomou conta do salão. Ela caiu de joelhos no chão tentando desesperadamente abafar o som agudo que tomava conta de sua alma e feria seu corpo como a lamina de um punhal.
Tão de repente quanto começou, ele se sessou. Silencio absoluto. Ela estava ofegante. Seus olhos cerrados com todas as suas forças tentando conter seu corpo exaltado. Sentiu seus joelhos se impregnarem com algo quente e viscoso. Abriu seus olhos devagar. Seu corpo se congelou e foi como se ela tivesse morrido e voltado. Todo o chão era vermelho. As paredes escorriam vermelho. Vermelho gritante. Tão vermelho quanto loiro avermelhado. Vermelho quente. Como lava, descia do infinito teto pelas paredes, chegando ao chão e se espalhando. E o espelho tinha se esvaído. Em seu lugar uma enorme poça de sangue vermelho se encontrava. E uma pessoa estava lá.
Ela não era o homem, não era um desconhecido, nem era seu amado. Ela se pois de pé. Encarava a estranha conhecida. Era como se olha no espelho. Era ela. Coberta de vermelho. Seus cabelos negros caiam em cachoeiras pelo seu corpo. Vão se via roupa nem nudez. Era como se estivesse com um longo e belo vestido.
A ela vermelha abriu os olhos e soltou uma orgulhosa e ressentida gargalhada. Soltava todos os sofrimentos passados, as dores e decepções nessa doentia gargalhada. Ela negra caiu de joelhos aterrorizada. Todo o chão agora estava vermelho.
A vermelha começou a cantarolar. Dando pequenos passos, andando em círculos em volta da figura caída. Ela negra agora entendia. Era ela. Lutava para encontra-la a vida toda, e agora que ela estava diante de seus olhos, não tinha forças nem para ficar de pé. Os maus sentimentos voltaram a tona. Então o toque de sua própria mão refletida tocou-lhe o ombro. Energia elétrica passou pelo seu corpo e ela sentiu ódio. Não poderia estar acontecendo. Só agora que lhe aparece? Ela se levanta de um salto e agarra com violência seu outro eu. A vermelha refletia seus movimentos quase que igualmente.
Nada mudou quando ela tentara fingir. Agora ela via como era realmente. Encarou-se. Os dois pares de olhos se refletiam. Identificaram-se. Ela era sua mão amiga. Ela era sua luta. Ela era sua morte. Tudo  o que ela queria era saber e se conhecer. Agora estava feito.
Tinha implorado a vida toda por algo que não existia. Estava cara a cara com ela mesma, e a única coisa que queria fazer era se destruir. Como sempre fez... Ela parou. Ainda agarrando violentamente o braço uma da outra. Não fazia sentido. Por que ela sempre se destruía?
Ela viu todos os detalhes de seu próprio eu. Seus pensamentos, seu jeito. Tudo se encaixava perfeitamente. Uma controlava e a outra ficava na sombra. Uma mandava a outra obedecia. Mas quem era quem? Ela se afastou de seu eu. Seu olhar era vago. A outra sorriu e um arrepio passou pelo corpo dela. Era o sorriso do homem.
- Finalmente encontrou você mesma. Eu estava dentro de sua mente o tempo todo. Você acreditava em mim de tal forma que me materializei da forma que te agradava. Satisfazendo-lhe. Você tentava mudar mas era impossível. Seus esforços foram em vão. E era isso que te enlouquecia. Você não precisa mais sofrer... – deu uma pausa, séria, e continuou – Você tem um poder incrível.
Tão rápido como um suspiro, ela beijou-a, ardente e apaixonadamente. Fazendo seus corpos ferverem. Ser retribuída foi mais caloroso do que o próprio ato. Suas bocas se juntavam perfeitamente. Elas eram um.
Ela se afastou, com seus olhos fechados. Sorrindo. O abraço que se seguiu era mais alto e frio do que antes. Abriu seus olhos e quem a abraçava era o homem. Estava em total paz. Mexeu lhe nos cabelos e ficou de frente para ela. A outra não estava mais lá. Ela era a outra. Olhou seu próprio corpo cheio de vermelho. Um vestido feito de sangue e lava. Puro fogo. Assim como ela.
O chão começou a mudar de cor. Além do vermelho outras cores começavam a aparecer. Cores flutuantes e suas músicas serenas formavam  o cenário ao redor. Pedaços de espelho flutuavam como neve nova. O chão era pura cor. O céu era ouro e infinito. As cores levantavam-se com a música, nascendo. Ela se vira para o homem. Ele continuava a sorrir.
- Eu sou Gabriel e este é seu reino.
Cores de todos os cantos se juntaram e formaram uma bela tiara delicada em seus cabelos negros.
- Agora que fiz tudo que desejaste... Está na hora. Você, em Terra, compactou que seria minha. Te dei tudo oque desejou, lhe fiz todos os desejos. Agora está na hora de cumprir sua parte do pacto.
- Farei tudo o que desejar. Serei sua. Para sempre.
A conhecida canção que sempre ouvia seu amado na Terra cantarolar para ela começou a soar, bela e delicada, no ambiente. Gabriel estendeu suas assas e a acolheu no seio de sua alma.

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