Os Dois Lados da Moeda
Ela se vê no centro da enorme sala. Era redonda e alta.
E desde o chão até onde a vista alcançava no alto estava cheia de espelhos.
Colocados em fileiras nas paredes. Um em cima do outro. Todos eles eram iguais.
Retangulares, com dois metros. Suas bordas eram de prata. E refletido em cada
um deles dava para ver mais mil espelhos, um dentro do outro. Do alto, uma luz
fria iluminava parcialmente o aposento, não era do Sol nem da Lua. Era somente
uma luz. Sem vida.
Ela estava curiosa.
Que sala seria essa? Procurou o homem que a trouxera para lá mas não o viu em
lugar nenhum.
Um movimento em um
dos espelhos a sua frente chamou a atenção da garota. Ela olhou para trás,
procurando a origem. Mas nada viu além de mais espelhos refletindo mais mil
espelhos. Ela encarou o espelho a sua frente novamente, esperando algum outro
movimento. Foi se aproximando silenciosamente. Tinha medo de que qualquer
barulho pudesse acordar algum perigo à volta.
Chegando a frente,
viu seu reflexo e outros mil espelhos refletidos com mil outras versões dela
olhando para eles. Ela se pois a observar o belo objeto. Em sua terra, nunca
vira algo tão belo e simples. O vidro era claro como agua pura. A prata era
delicada e brilhante, como se fosse feita dos raios da lua cheia. Era tão límpido
que nunca parecia ter sido tocado. E tão fino que provavelmente se partiria com
uma brisa de verão.
O intuito de tocar o
belo objeto era tão grande que não se segurou. Elevou a mão devagar, até a
altura dos ombros. Excitou temerosa. Seus olhos grudados nos olhos refletidos.
Então uma cabeça se mexeu. Uma de suas mil cabeças saiu da perfeita linha
refletida e a olhou, como se com medo, e voltou ao seu lugar rapidamente. Ela
deu um grito, tampando a boca com as mãos. Saltou para trás e encarou suas
outras mil versões fazendo o mesmo movimento perfeitamente. Ela estava vendo
coisas, pensava.
- Você não está
vendo coisas. – A voz cantada em seu ouvido fez ela se virar rapidamente. Ela
não tinha visto outro reflexo além do dela, não previu uma aproximação.
Era o homem. Bem ao
seu lado. Sorria delicado, mas seus olhos eram pesados.
- Quem você viu, era
você. Uma de suas você. Uma de suas personalidades. Elas são instruídas a
fazerem tudo igual você faz. Agir, falar... Mas algo deu errado em sua
fabricação e algumas delas se tornaram mais... Explosivas. E é isso que faz seu
temperamento ser tão inconstante. Além do mais, isso permite que você veja as
coisas de forma diferente.
“Mas não é só isso.
A sua você principal, diremos assim, tenta sair de seu padrão de fabricação. E
isso enlouquece seu cérebro. Para agradar aos outros e talvez até a si mesma,
você tenta ser diferente. Isso faz com que você se perca, deprima e se
entristeça por não conseguir se mudar. O mais interessante – Ele olha para o
espelho, encarando a cabeça que se mexeu – é que você não quer mudar. O seu eu
mesmo está lutando.”
Ela nada dizia.
Lembrou de sua vida. De como lutara em inúmeras situações tanto para ser ela
mesma quanto para mudar-se. Lembrou-se de se ajoelhar e implorar a um alguém que
não a compreendia para não deixa-la. Que ela era incompleta sem ele. Que ela
tinha se mudado por ele. Lembrou-se de se esconder dos outros, pois não era
compreendida. Mas como ela seria compreendida se nem ela mesma conseguia fazer
isso?
Ela se viu caída,
inúmeras vezes, derrubada pelo mundo, sem conseguir se levantar. Perguntando, implorando, ordenando por uma
mão amiga. Mas ela se afundava cada vez mais. O poço já não era fundo o
bastante para ela.
Fatos de sua vida
passaram diante de seus olhos. A explicação do homem era simples. A culpa era
dela e de sua mente. Ela era quebrada, nasceu assim e sempre seria assim. Por
mais que tentasse, nada que fizesse faria efeito. Sua mente era uma loucura.
Teria ela de ceder a loucura?
Um sussurro começou
a ecoar pelo ambiente. Era agudo e suave. Encheu a mente da garota como se
hipnotizasse.
“Ceda a mim, ceda a
mim”.
Essa voz foi
aumentando vagarosamente. O brilho dos espelhos a se intensificar. E bela viu
as mil dela refletidas no espelho. Estavam valsando. Mil em cada espelho.
Atravessando para outro e mais outro, valsando ao som do sussurro e sua
melodia. Então ela se viu girando e rodopiando juntamente com as mil dela
refletidas. Embriagada. Ela não pensava mais.
Ela parou no meio do
salão. Um dos espelhos havia se apagado ao fundo. Depois outro, depois outro.
Mil espelhos se apagaram ao meu redor, mais mil acima. E atrás. Meus outros eu
desaparecendo. O homem no meio do salão foi se transformando. Empalidecendo até
se transparecer. Aumentando. Se afinando. Então, no final da transformação, ele
era o mais imponente espelho que havia naquela sala.
Ele não era feito de
prata ou outro. E nem cravejado de diamantes. Ele era manchado, enorme, sem
borda alguma. E não parecia ser feito de nenhum tipo de material físico. Era
como uma neblina.
Ela se via frente a
frente o que antes, era um conhecido. Era com certeza um espelho, pois ela se
via. Mas somente a ela. Não havia nada ao redor. Seu reflexo era destorcido.
Como o espelho neblina. Ele se multava. Suas feições se alongavam, diminuíam,
ondulavam, Além disso, ela percebeu que a medida que se encarava via suas
feições mudando. Suas roupas e idade também transpareciam diferentes. Cada
rosto que aparecia a sua frente era um sentimento. Um momento. Uma lembrança. Uma
personalidade.
Um adorno surgiu na
parte de cima do grande espelho. Grandes palavras prateadas com os dizeres
“Psy” se floreavam.
Os rostos
continuavam e multando. Sua velocidade aumentava aos poucos. Cada um com sua
característica. E de cada boca se sussurrava “psy, psy”. As vozes encheram o grande salão. Cada qual
atropelando a outra com o aumento da velocidade.
“psy, psy, psy”.
Já não podia se ver
ou distinguir os reflexos no espelho. Era somente um borrão, mudando
alucinantemente. Confundindo a mente dela. O grande objeto começou a se esvair.
A neblina se dissipando devagar. Ele se iluminou. Sua velocidade e as vozes
eram indescritíveis e inteligíveis. Ela deu um passo para trás. Um grito agudo
tomou conta do salão. Ela caiu de joelhos no chão tentando desesperadamente
abafar o som agudo que tomava conta de sua alma e feria seu corpo como a lamina
de um punhal.
Tão de repente
quanto começou, ele se sessou. Silencio absoluto. Ela estava ofegante. Seus
olhos cerrados com todas as suas forças tentando conter seu corpo exaltado.
Sentiu seus joelhos se impregnarem com algo quente e viscoso. Abriu seus olhos
devagar. Seu corpo se congelou e foi como se ela tivesse morrido e voltado.
Todo o chão era vermelho. As paredes escorriam vermelho. Vermelho gritante. Tão
vermelho quanto loiro avermelhado. Vermelho quente. Como lava, descia do
infinito teto pelas paredes, chegando ao chão e se espalhando. E o espelho
tinha se esvaído. Em seu lugar uma enorme poça de sangue vermelho se
encontrava. E uma pessoa estava lá.
Ela não era o homem,
não era um desconhecido, nem era seu amado. Ela se pois de pé. Encarava a
estranha conhecida. Era como se olha no espelho. Era ela. Coberta de vermelho.
Seus cabelos negros caiam em cachoeiras pelo seu corpo. Vão se via roupa nem nudez.
Era como se estivesse com um longo e belo vestido.
A ela vermelha abriu
os olhos e soltou uma orgulhosa e ressentida gargalhada. Soltava todos os
sofrimentos passados, as dores e decepções nessa doentia gargalhada. Ela negra
caiu de joelhos aterrorizada. Todo o chão agora estava vermelho.
A vermelha começou a
cantarolar. Dando pequenos passos, andando em círculos em volta da figura
caída. Ela negra agora entendia. Era ela. Lutava para encontra-la a vida toda,
e agora que ela estava diante de seus olhos, não tinha forças nem para ficar de
pé. Os maus sentimentos voltaram a tona. Então o toque de sua própria mão
refletida tocou-lhe o ombro. Energia elétrica passou pelo seu corpo e ela
sentiu ódio. Não poderia estar acontecendo. Só agora que lhe aparece? Ela se
levanta de um salto e agarra com violência seu outro eu. A vermelha refletia
seus movimentos quase que igualmente.
Nada mudou quando
ela tentara fingir. Agora ela via como era realmente. Encarou-se. Os dois pares
de olhos se refletiam. Identificaram-se. Ela era sua mão amiga. Ela era sua
luta. Ela era sua morte. Tudo o que ela
queria era saber e se conhecer. Agora estava feito.
Tinha implorado a
vida toda por algo que não existia. Estava cara a cara com ela mesma, e a única
coisa que queria fazer era se destruir. Como sempre fez... Ela parou. Ainda
agarrando violentamente o braço uma da outra. Não fazia sentido.
Por que ela sempre se destruía?
Ela viu todos os
detalhes de seu próprio eu. Seus pensamentos, seu jeito. Tudo se
encaixava perfeitamente. Uma controlava e a outra ficava na
sombra. Uma mandava a outra obedecia. Mas quem era quem? Ela se afastou
de seu eu. Seu olhar era vago. A outra sorriu e um arrepio passou pelo corpo
dela. Era o sorriso do homem.
- Finalmente
encontrou você mesma. Eu estava dentro de sua mente
o tempo todo. Você acreditava em mim de tal forma que me materializei da forma
que te agradava. Satisfazendo-lhe. Você tentava mudar mas era impossível.
Seus esforços foram em vão. E era isso que te enlouquecia. Você não
precisa mais sofrer... – deu uma pausa, séria, e continuou – Você
tem um poder incrível.
Tão rápido como um
suspiro, ela beijou-a, ardente e apaixonadamente. Fazendo
seus corpos ferverem. Ser retribuída foi mais caloroso do que o próprio ato.
Suas bocas se juntavam perfeitamente. Elas eram um.
Ela se afastou, com seus
olhos fechados. Sorrindo. O abraço que se seguiu era mais alto e frio do
que antes. Abriu seus olhos e quem a abraçava era o homem. Estava em
total paz. Mexeu lhe nos cabelos e ficou de frente para ela. A
outra não estava mais lá. Ela era a outra. Olhou seu próprio corpo cheio
de vermelho. Um vestido feito de sangue e lava. Puro fogo. Assim como ela.
O chão começou a
mudar de cor. Além do vermelho outras cores começavam a aparecer. Cores flutuantes
e suas músicas serenas formavam o
cenário ao redor. Pedaços de espelho flutuavam como neve nova.
O chão era pura cor. O céu era ouro e infinito. As cores levantavam-se
com a música, nascendo. Ela se vira para o homem. Ele continuava
a sorrir.
- Eu sou Gabriel e
este é seu reino.
Cores de todos os cantos
se juntaram e formaram uma bela tiara delicada em seus cabelos negros.
- Agora que fiz tudo
que desejaste... Está na hora. Você, em Terra, compactou que seria minha.
Te dei tudo oque desejou, lhe fiz todos os desejos. Agora está na hora
de cumprir sua parte do pacto.
- Farei tudo o que
desejar. Serei sua. Para sempre.
A conhecida canção
que sempre ouvia seu amado na Terra cantarolar para ela começou a
soar, bela e delicada, no ambiente. Gabriel estendeu suas
assas e a acolheu no seio de sua alma.

Nenhum comentário:
Postar um comentário