Tarde da noite. Lua cheia
alta no céu. Sua mente estava absorta no álbum de Gorillaz que tocava ao fundo
e seus olhos não desgrudavam do viciante jogo de RPG online. Passava o dia
assim. Jogo, música e erva. E nada mais importava, era a sua paz.
Só algo a incomodava.
Sua mente estava parada. Apesar de inspirações constantes irem e virem,
ela não as aproveitava. Estava diferente. Algo em si mudara. Todos que a conheceram antes sabiam o que era.
Somente ela não conseguia identificar o que exatamente era diferente.
Se sentia em outra dimensão. Uma dimensão mais colorida.
Psicodélica. Era algo que ela não havia
experimentado antes e não sabia reagir a tal coisa. Seus pensamentos só ficavam
em sua mente. Muitos deles que ela adoraria descrever com facilidade mas não
podia. Sua lado artístico não pertencia a tal lado.
Ela queria sair, agir, mudar, viver nesse novo mundo colorido. O preto e
vermelho não haviam sumido, claro. Todas as noites a aranha da desolação e
desespero a picava com sonhos e pesadelos de mundos extraordinários e
desolação. Morte e luta. Perdas e conquistas. Fracassos pessoais. Pensamentos
perigosos e viciantes. Atos.
E ele sempre está lá, com ela. Envolvendo-a com sua adorável e inebriante
energia. Ela sabia, só não sabia por quê ele se fortificava longe de casa. Será
que algo a protegia? Talvez...
E os os sonhos continuavam. Sonhos de luta contra monstros e mortes de
amigos. De escuridão e vícios. Poderes sobrenaturais, mágicos. Castelos e
refúgios. Era nesse mundo que vivia. Mesmo com seus olhos abertos, ela sonha. E
a aranha continua lá. Era ruim, ela sabia, mas não podia evitar. Era tão
delicioso.
Seu medo nã era da morte e nem da luta. Ela temia a perda de quem a
respeita e ama. Apesar de afirmarem com total convicção de que não a deixariam
e não seria julgada, ela temia.
Seu outro mundo estava em perigo. Era o mundo real para os outros, e de
ilusão para ela. Pois ela vivia na fantasia. Ela vivia na noite, sobrenatural.
E era lá, no meio da guerra entre monstros, que ela sentia sua paz. Onde
a aranha manda. A aranha que só ela pode ver.

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